Seleção e especificação de materiais e sistemas construtivos para edificações residenciais, comerciais e industriais dentro do conceito de Greenbuildings.

Resumo: A preocupação com a eficiência do uso de recursos naturais ganhou destaque com a reunião do chamado Clube de Roma, em 1972. O conceito de ecologia industrial surgiu na década de 80 e, no início da década de 90, os conceitos de eco-eficiência e o Natural Step (TNS). Um dos marcos mais relevantes foi publicado alguns anos depois, sob o título de capitalismo natural.
Em 1998, Weizsäcker et al. afirmaram ser possível aumentar a eficiência no uso de recursos por um Fator 4, ou seja, fazer quatro vezes mais com recursos naturais do que se fazia na ocasião. O Wuppertal Institute sugere uma redução no consumo de materiais por unidade de serviço (MIPS) (ou o aumento da eficiência no uso de recursos) em um fator de 10, para que se possa chegar a um regime sustentável.
Em paralelo, a Sociedade de Toxicologia e Química Ambiental desenvolvia a análise do ciclo de vida (life-cycle analysis, LCA), que investiga o impacto de um produto em cada etapa de seu ciclo de vida, desde seu desenvolvimento preliminar até a obsolescência (abordagem berço ao túmulo ou cradle-to-grave).
O conceito das três dimensões da sustentabilidade, contemplando a viabilidade econômica, a responsabilidade ambiental e a justiça social só surgiria no final da década de 90, seguido das aplicações em projeto para o ambiente (DfE) e em projeto para desmontagem (DfD).
Kibert (2000) propôs a chamada ecologia da construção, cujo objetivo é implementar um sistema de materiais em ciclo fechado (closed-loop), dependente de recursos renováveis e que busque a preservação e integração com sistemas naturais em todos os aspectos do processo de construção.
Em 2002, McDonough e Braungart lançaram a abordagem berço-a-berço (cradle-to-cradle), que, de um lado, expande o horizonte da LCA e, de outro, é completamente baseada no fechamento do ciclo dos materiais e eliminação do conceito de resíduo.
A análise desta evolução de pensamento torna claro que a questão de uso sustentável de recursos no ambiente construído vai além da esfera de materiais. Na verdade, em vez de selecionar materiais, deve-se pensar em selecionar sistemas (ou seja, produtos, componentes e processos construtivos), considerando sua vida útil (50 anos ou superior, de acordo com a tipologia em questão) e destinação pós-vida, segundo uma perspectiva de análise de custos igualmente com base no ciclo de vida.
É consenso que a produção, o transporte e o uso de materiais, produtos e componentes de construção contribuem significativamente para poluição do ambiente dentro e fora de edifícios.
Com a instituição dos mercados verdes e o conseqüente desenvolvimento da série de normas ISO 14.000, os enfoques passaram a ser direcionados sob uma visão holística dos ciclos de vida, atendo-se fundamentalmente nos processos industriais de produção e na perspectiva dos materiais. Como resultado, esse processo implicou na fomentação e no desenvolvimento de análises de desempenho ambiental, avaliando-se questões relacionadas ao consumo de energia, matéria-prima, geração e disposição de resíduos sólidos.
O setor da construção civil é responsável por grandes contribuições econômicas e sociais, por meio da produção de bens e serviços, com participação superior a 14,5% no PIB brasileiro, o que reflete o enorme e importante papel do setor no sentido de proporcionar um ambiente construído adequado para a população e suas complexas atividades sociais, econômicas e culturais. Este mesmo gigantismo abre espaço para oportunidades de melhoria, e estima-se que um mercado para tecnologias ambientais de U$906 bilhões em 2010.
As estimativas da participação da construção civil no consumo global de recursos naturais variam entre 14 e 75%, este último dado correspondendo aos EUA. O consumo anual per capita é de 6 ton/hab./ano no Reino Unido, 9,4 ton/hab./ano no Japão e 7,5 ton/hab./ano nos EUA. O volume de recursos naturais utilizados pela construção civil corresponde a, pelo menos, um terço do total consumido anualmente por todos os segmentos da sociedade.
De acordo com o Worldwatch Institute, em nível mundial, a construção de edifícios consome, anualmente, 40% de matéria-prima, 66% de madeira, 40% de energia e cerca de 16% do volume de água.
No Brasil, são produzidas, aproximadamente, 35 milhões de toneladas de cimento Portland por ano. Ao considerar-se que este material seja misturado com agregados a um traço médio de 1:6, em massa, pode-se estimar um consumo anual de 210 milhões de toneladas de matérias-primas, somente para a produção de concretos e argamassas, nos quais não estão consideradas as perdas e os volumes de agregados usados em pavimentação.
Como outro impacto ambiental negativo, a massa de resíduos gerados de construção e demolição é igual ou superior à massa de lixo urbano, com valores muito variáveis entre países, geralmente em torno de 400 kg/hab.ano, inclusive para países como o Brasil.
Em 1998, o Organization for Economic Cooperation and Development (OECD) desenvolveu iniciativas para diminuir os impactos oriundos das edificações; seja na construção, por meio da utilização de materiais reciclados, assim como na demolição, pela minimização da geração e disposição final de resíduos. Posteriormente, em 1999, foi publicada pelo International Council for Research and Innovation in Building and Construction (CIB) uma agenda específica para o setor da construção civil, a Agenda 21 on Sustainable Construction, direcionada à implantação das diretrizes fundamentais para o desenvolvimento sustentável.
Para estabelecer as prioridades industriais para a realidade do Brasil, a partir da publicação da Agenda 21 do CIB, John et al. (2001) propõem uma agenda específica para a indústria da construção civil, focando a qualidade ambiental de edifícios e dos produtos de construção; a redução do consumo de recursos naturais e de água; a especificação de materiais reciclados e recicláveis; a especificação de materiais de menor toxidade; a redução do desperdício e da geração de resíduos de construção e de demolição; a utilização de recursos naturais renováveis e locais; a especificação de materiais de maior durabilidade e vida útil; o planejamento da manutenção; a melhoria da qualidade da construção e o gerenciamento organizacional dos processos, contemplando, ainda, aspectos sociais relacionados ao déficit habitacional, de infra-estrutura e de serviços sanitários.
A interseção entre sustentabilidade e o uso de materiais deve focar a toxicidade e a gestão de recursos. A questão da toxicidade está relacionada com o impacto das escolhas nos recursos naturais e na saúde relativa do ambiente e do ser humano. A questão de gestão de recursos deve abraçar o impacto na qualidade e no ciclo de um determinado recurso, e terá implicações no desempenho do material, incluindo durabilidade, eficiência energética, quantidade de resíduo gerado, e potencial para reuso e reciclagem.
Assim, atributos relacionados com a toxicidade, com gestão de recursos, com o desempenho em serviço e com indicadores sociais, constituem uma base valiosa para avaliar materiais em termos de sustentabilidade.
A Análise do Ciclo de Vida (ou Life Cycle Assessment), método desenvolvido pela Society of Environmental Toxicology and Chemistry (SETAC) e adotado pela International Standardization Organization (ISO), destaca-se como ferramenta de excelência internacionalmente reconhecida para a avaliação dos impactos potenciais de produtos, processos e sistemas, desde a retirada das matérias-primas elementares da natureza, à disposição final, incluindo as etapas de produção, transporte, distribuição, uso, reuso, manutenção e reciclagem, quantificando e qualificando os recursos materiais e energéticos utilizados, assim como as emissões geradas nas diferentes etapas produtivas.
A LCA também é uma importante ferramenta de suporte à avaliação dos efeitos ambientais relacionados às especificações e substituições de materiais e componentes ao longo do ciclo de vida, priorizando possibilidades de melhorias durante as fases produtivas, minimização de perdas e a concepção de produtos de maior durabilidade e desempenho ambiental, fomentando a competitividade econômica do mercado.

Data de início: 2011-03-01
Prazo (meses): 24

Participantes:

Papelordem decrescente Nome
Aluno Doutorado Flávia Ruschi Mendes de Oliveira
Aluno Doutorado Karla Moreira Conde
Coordenador Maristela Gomes da Silva
Vice-Coordenador Márcia Aiko Shirakawa
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